Marielle Vive! A Semente Floresceu no Asfalto
*25 de fevereiro de 2026*
Hoje o Brasil acordou diferente. Há uma luz nova pairando sobre a Cinelândia, um vento quente que vem da Zona Oeste e atravessa o centro do Rio carregando um perfume que há oito anos não sentíamos: o cheiro da justiça.
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, condenou os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes . Setenta e seis anos e três meses para os irmãos Brazão, os mandantes . Cinquenta e seis para o major Ronald, que vigiou seus passos . Dezoito para Rivaldo Barbosa, o delegado que deveria proteger e preferiu atrapalhar . Nove para Robson Calixto, peça da engrenagem criminosa .
Mas os números não dizem tudo. Não dizem do abraço de Dona Marinete, a mãe, que teve um pico de pressão mas se recusou a sair — como quem diz: "passei oito anos esperando, não vou perder esse momento" . Não dizem da emoção de Luyara, a filha, que carrega o sobrenome e a luta . Não dizem de Agatha, viúva de Anderson, que olhou para o plenário e declarou: "Ainda há esperança, ainda há quem faça o bem. O mal não vai sobreviver. Hoje foi prova disso" .
O Recado para os que Debocharam
Anielle Franco, ministra, irmã, guerreira, colocou em palavras o que muitos sentiam: esta condenação é um recado para quem debochou da morte de Marielle . Para quem, em todo ano eleitoral, a tratou como "elemento descartável" . Para quem chamou de "mimimi" a dor de uma família, de um povo, de um país que viu uma mulher preta, favelada, bissexual, ser executada com quatro tiros na cabeça por ousar enfrentar milicianos.
O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, sintetizou o ódio que a matou: "Se juntou a questão política com misoginia, com racismo, com discriminação. Marielle era uma mulher preta, pobre, que estava peitando os interesses de milicianos. Qual o recado mais forte que poderia ser feito? E na cabeça misógina de executores, quem iria ligar pra isso?" .
Eles pensaram que ninguém ligaria. Pensaram que o silêncio engoliria mais uma preta. Pensaram que o Rio de Janeiro, acostumado a enterrar seus jovens nas estatísticas da violência, acrescentaria mais um nome à lista e seguiria.
Não contavam com a semente.
A Semente que Virou Bosque
Porque Marielle não era apenas uma vereadora. Era uma encruzilhada. Negra, criada na Maré, criada pela comunidade, criada pela fé e pela raiva. Socióloga, mãe, companheira. Eleita com 46 mil votos, mas representando milhões que nunca tiveram voz nas câmaras e nos palácios.
Ela denunciava as milícias. Denunciava a grilagem de terras. Denunciava a violência policial. Denunciava o extermínio da juventude negra. E por isso a mataram. Não foi um crime passional, não foi um assalto que deu errado. Foi execução política, planejada nos gabinetes onde o crime organizado encontra abrigo no estado .
O procurador Hindenburgo Chateaubriand mostrou: Marielle realizava reuniões em áreas dominadas pela milícia, era vista como risco aos negócios dos irmãos Brazão . O alvo preferencial era Freixo, mas ele tinha segurança. Ela, não. Ela era mulher, preta, e na cabeça daqueles homens, "quem iria ligar pra isso?" .
Ligamos, sim. Ligamos e não paramos de ligar. Durante oito anos, a pergunta "quem mandou matar Marielle?" ecoou em cada protesto, em cada intervenção artística, em cada mulher que pintou "Marielle Vive!" nos muros da cidade . Hoje, Dona Marinete pôde responder: "Agora sabemos" .
A Justiça que Tarda, mas não Falha
Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas, recebendo supersalário mesmo preso . Chiquinho Brazão, deputado federal, nomeado para secretaria enquanto o nome da família aparecia em delações . Rivaldo Barbosa, nomeado chefe de polícia um dia antes do crime, para garantir que as investigações não chegassem a lugar nenhum . A organização criminosa infiltrada no estado, usando a máquina pública para proteger seus negócios de sangue e terra.
O STF desmontou essa engrenagem. Votaram Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia, Flávio Dino . Unânimes. Como se o próprio tribunal dissesse: "até aqui chegaram, não passarão".
Fernanda Chaves, a assessora que sobreviveu aos tiros, testemunha viva do que aconteceu naquela noite de 14 de março de 2018, declarou: "O Estado brasileiro passa o recado de que crimes como esse, o feminicídio político, não é tolerável. O Brasil responde ao mundo uma pergunta que a gente passou se fazendo por oito anos, quase uma década" .
O mundo ouviu. A Anistia Internacional, em Lisboa, colou cartazes em frente à embaixada brasileira: "Defender os direitos humanos não pode custar vidas" . A comunidade internacional acompanhou, pressionou, esperou. E hoje celebra conosco.
A Verdadeira Justiça
Mas Monica Benício, viúva de Marielle, vereadora, companheira de uma vida e de todas as vidas, lembrou o essencial: a condenação não encerra a luta. É um passo, um marco, uma vitória — mas a verdadeira justiça por Marielle é maior .
"A verdadeira justiça por Marielle é desfazer esse sistema, esse ecossistema criminoso que existe no estado do Rio de Janeiro, essas relações entre o crime e a política. É preciso que a gente possa colocar um basta pra que haja uma transformação social efetiva" .
Porque Marielle não foi morta por quatro homens. Foi morta por um sistema que reproduz desigualdade, que alimenta milícias, que protege políticos criminosos, que mata pretos e pretas todos os dias nas periferias e nos morros. A condenação de hoje é a ponta de um iceberg que precisa derreter por inteiro.
O que Fica
Fica o exemplo de uma família que não se curvou. Marinete, a mãe, que enfrentou ameaças, deboches, silêncios, e hoje sai do STF com a cabeça erguida . Anielle, a irmã, que transformou dor em ministério, em políticas públicas, em esperança para tantas Marielles que vêm depois. Luyara, a filha, que carrega o legado e a memória. Monica, a companheira, que nunca deixou a peteca cair.
Fica a certeza de que a luta vale a pena. Oito anos parecem uma eternidade quando se espera justiça. Mas o tempo da espera também foi tempo de organização, de resistência, de multiplicação. Marielle virou pauta, virou lei, virou movimento, virou chama.
Fica o recado para os que ainda insistem no ódio: Marielle não era apenas uma. Ela era muitas. E cada tentativa de silenciá-la fez brotar mil vozes novas.
Marielle Vive!
Hoje, 25 de fevereiro de 2026, a justiça chegou. Tarde, mas chegou. Incompleta, porque nenhuma sentença trará Marielle e Anderson de volta. Mas necessária, porque diz ao povo brasileiro que é possível vencer, que é possível furar o bloqueio da impunidade, que é possível enfrentar o crime organizado mesmo quando ele veste terno e ocupa gabinetes.
Que esse dia seja celebrado com flores, com abraços, com lágrimas de alegria e alívio. Que Dona Marinete possa dormir um pouco mais tranquila. Que Luyara sinta o orgulho de carregar esse sobrenome. Que Anderson seja lembrado não apenas como motorista, mas como a vida que também foi ceifada pela mesma bala.
E que Marielle, lá de onde estiver — no axé, na estrela, na memória, no coração de cada mulher que segue lutando — possa sorrir.
Porque ela venceu.
Ela vive.
Marielle, presente! Hoje e sempre!
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